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A Deflação e seus Benefícios

A Deflação e seus Benefícios




escrevemos aqui sobre o que é a inflação de acordo com a Escola Austríaca de Economia. Desta vez, trazemos uma breve exposição de argumentos a favor da deflação de preços e seus benefícios para a economia como um todo.


Uma deflação de preços natural ocorre em um cenário em que a moeda não é inflacionada e há investimentos mais sustentáveis e aumento de produtividade. Numa economia com pouca ou nenhuma intervenção do governo (pelo menos poucas intervenções monetárias e poucas regulações, gastos e impostos), há uma tendência para mais investimentos de longo prazo, que aumentam a produtividade da economia. Numa economia deflacionária, o poder de compra da moeda tende a aumentar, pois não há inflação monetária por parte dos bancos centrais e os preços tendem a cair. Os consumidores podem adquirir mais produtos e serviços e as empresas aumentam suas margens de lucro.


Mas os governos não gostam de deflação e falam constantemente a favor da inflação. Os governos são a entidade que mais se endividam. E a inflação é benéfica aos devedores, pois devolvem os empréstimos em uma moeda com poder de compra mais baixo do que quando receberam o empréstimo. É ainda mais benéfica ao governo, que pode imprimir dinheiro para pagar a dívida. Além disto, a inflação é boa para o governo porque cria um aparente boom económico, que, eventualmente será liquidado por uma recessão. Mas, como isto pode levar alguns anos, o incentivo de curto prazo para quem está no poder é usufruir deste instrumento.


Dois argumentos típicos dos governos contra a deflação são:


1 – Se houver deflação, os empresários terão prejuízos


O raciocínio por trás desta afirmação é o de que, havendo queda de preços, os empresários irão vender os produtos e serviços a preços mais baixos do que custaram para produzi-los. Porém, esta afirmação não se sustenta se considerarmos o facto de que, numa economia deflacionária, o poder de compra da moeda tende a aumentar. Então, mesmo que os empresários recebam, nominalmente, menos do que seus produtos custaram, em termos reais, terão lucro. Além disto, os preços dos próprios insumos utilizados na produção também irão baixar. Portanto, com o uso da produtividade e do controlo de custos que toda empresa deve ter, é possível vender os produtos a um preço mais baixo, mas com a mesma margem de lucro ou até mais alta (Nota: mesmo se desconsiderarmos este ganho de poder de compra da moeda e a diminuição dos custos de produção, seria possível que o empresário se protegesse através de contratos futuros de pagamento). E, justamente porque os preços são cada vez mais baixos, os consumidores adquirem mais produtos e serviços (de maneira mais sustentável, sem se endividarem) e as empresas lucram mais pela margem que conseguem pela diminuição dos custos que ocorre graças a deflação. É o que ocorre, sobretudo, no setor de tecnologia. Os computadores, hoje, são mais baratos e muito melhores do que eram há 30 anos. Justamente porque os preços caíram (através do aumento da produtividade), os consumidores passaram a comprar em massa, o que aumentou os lucros da indústria, que passou a ter mais investimentos e aumento de produtividade (continuando a baixar os preços e a aumentar a qualidade dos produtos).


2 – Se houver deflação, os consumidores irão adiar o consumo


O raciocínio por trás deste argumento é o de que, se os preços caírem constantemente, ninguém irá adquirir os produtos e serviços porque os indivíduos irão sempre esperar os preços baixarem. Isto também não se sustenta, pois há sempre produtos e serviços de necessidade, que as pessoas têm de adquirir (como alimentos e remédios). Ninguém vai passar fome ou ficar sem medicamentos porque daqui a dois meses serão mais baratos. Apenas quando o produto ou serviço está caro para o consumidor é que este adia o consumo, que é o que ocorre em um cenário de constante inflação pelos bancos centrais (neste caso, na melhor das hipóteses, os preços, em geral, permanecem constantes ou baixam pouco). Além disto, as pessoas tendem a ter uma preferência temporal alta, e, portanto, querem satisfazer suas demandas no presente, não no futuro. Se o puderem fazer (isto é, se os produtos ou serviços estiverem a preços acessíveis), não irão exitar.


A deflação, portanto, possui diversos benefícios, não só ao consumidor, mas, também, aos empreendedores. Uma economia deflacionária torna as indústrias mais lucrativas e mais eficientes (produtos mais baratos e melhores). A deflação também possui dois outros efeitos benéficos:


1 – A economia torna-se menos endividada


Em uma economia deflacionária, os consumidores tenderiam a comprar os produtos e serviços em cash (a pronto/à vista) em vez de parcelarem. Desta forma, menos dinheiro seria direcionado a pagamentos de juros para consumo. O incentivo à poupança seria maior, o que levaria a maiores investimentos, o que levaria a uma maior produtividade, o que levaria a produtos e serviços mais baratos e melhores, o que levaria maiores lucros, o que levaria mais incentivos para investimentos nos setores…. Um ciclo benéfico à economia como um todo.


Além disto, o cenário atual de empresas-zumbi não ocorreria numa economia deflacionária, pois o incentivo seria a poupança para investimentos em produtividade, não o endividamento. O banco central (se existisse) não inflacionaria a moeda, nem faria controlo de juros e Quantitative Easing. As empresas tenderiam a ser mais eficientes pois estariam mais sujeitas ao mecanismo de lucros e prejuízos. Desta forma, as empresas ineficientes (que não geram valor) seriam eliminadas rapidamente, deixando recursos para serem utilizados por empresas potencialmente mais eficientes. Não haveria desperdício significativo (e duradouro) de recursos em empreendimentos não sustentáveis. A atividade bancária, por sua vez, também seria mais saudável pois tenderia a haver mais empréstimos para empreendimentos (que, em geral, iriam gerar valor que compensaria o gasto com juros) do que para consumo.


2 - Os produtos e serviços além de mais baratos e melhores, seriam mais diversificados


Assumindo também que o governo diminuiria os gastos, impostos e regulações significativamente, além de não interferir em termos monetários, uma economia deflacionária geraria uma maior diversificação de produtos e serviços, pois a concorrência (ou a concorrência potencial) tenderia a ser alta de tal forma que baixar os preços e melhorar a qualidade dos produtos não seria suficiente para a sobrevivência das empresas. Estas teriam de investir na diversificação de produtos, para dar mais opções aos consumidores, atendendo a demandas cada vez mais específicas e podendo vender a diversos públicos. Isto já ocorre no setor de tecnologia e ocorreria numa intensidade ainda maior, também, em outros setores.

 

Um exemplo de deflação ocorreu nos EUA, no século XIX. Entre 1800 e 1900, o índice de preços caiu 50% (de 150 para 100):


Figura 1 – Índice de Preços dos EUA (1800-1900)


Fonte: Deflating the Deflation Myth, Christopher Casey.


“Apesar” desta deflação, o século XIX foi marcado por um grande crescimento económico nos EUA. Um aumento de produtividade das indústrias e queda dos preços. Justamente o que ocorre numa economia deflacionária (ou, neste caso, que tende a uma deflação). Naquele século, os EUA viviam em um padrão-ouro, que é deflacionário. Houve apenas alguns períodos inflacionários, como o da Guerra Civil, na década de 1860. De acordo com este artigo do Patrick Newman, durante a Guerra Civil, foi estabelecida uma legislação monetária que criou o National Banking System. Assim, os bancos estaduais e nacionais puderam inflacionar o crédito sobre o mesmo conjunto de reservas de dinheiro legais por meio do uso de depósitos interbancários que pagavam juros. Esta expansão de crédito levou a uma depressão na década de 1870 (1873-1879), conforme explica a teoria austríaca dos ciclos económicos (TACE). A Expansão de crédito ainda continuou no período de depressão (que, segundo o autor deve ser considerada entre 1873 e 1875 porque os dados da época eram baseados em séries nominais e havia pouco acesso a informações económicas agregadas) e os sinais de contração começaram a aparecer, resultando em corridas bancárias, o que levou à contração do crédito. Além disto, não houve intervenções fiscais por parte do governo durante a depressão. Por isto, segundo o autor, a recuperação foi mais rápida, pois o mercado pôde realocar os recursos de maneira eficiente.


Cingapura também é um bom exemplo. O pequeno país não adota o padrão-ouro, nem o currency boardEntretanto, sua política cambial é menos inflacionária que a política de câmbio flutuante (adotada pela maior parte dos bancos centrais, incluindo o BCE, Fed e BACEN).


A partir de 1981, o MAS (Monetary Authority of Singapore), banco central de Cingapura, passou a atuar apenas no câmbio, controlando o valor do Dólar de Cingapura (SGD) em relação a uma cesta formada pelas moedas das principais economias do mundo, aumentando e reduzindo a base monetária através da compra e venda de ativos, respetivamente. O objetivo é ter uma moeda que se aprecie continuamente. Desta forma, o MAS não atua determinando a taxa básica de juros da economia, deixando-a ser determinada pelo mercado. Assim, os investimentos tendem a ser mais sustentáveis a médio e longo prazo (pois são realizados com a devida poupança prévia). Isto contribui para um crescimento económico sustentável, com recessões pouco intensas e rapidamente liquidadas. O resultado foi que entre 1982 e 2005 o SGD foi a moeda que menos perdeu poder de compra no mundo, superando até mesmo o fraco suíço.


Figura 2 – Índice de Preços de Cingapura e da Suíça


Índice de Preços de Cingapura (Linha Azul), Índice de Preços da Suíça (Linha Vermelha).

Fonte: St. Louis Fed.


A inflação de preços, portanto, permaneceu baixa (aumentando significativamente apenas em alguns pequenos períodos), havendo até - em alguns períodos - deflação de preços (inflação de preços abaixo de 0%).


Figura 3 – Inflação de Preços de Cingapura (1981-2021)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Ao ficar independente da Malásia em 1965, Cingapura adotou uma postura de ampla liberdade económica, criando empresas privadas com características de 1º mundo e competitivas no mercado global, além de possuir um padrão de vida elevado. O governo adotou uma política de baixos gastos públicos e baixa tributação, burocracia quase inexistente e mínima regulação. A postura menos inflacionária do MAS é um dos principais (senão o principal) fatores que contribuem para este desempenho de Cingapura.

 

Para saber mais sobre os efeitos benéficos da deflação clique aqui e aqui.


Recomendamos também esta palestra do Philipp Bagus, presidente da Elementum Internacional, sobre o assunto. Para os mais interessados, ele também possui um livro a respeito. 

 


André Marques