Reservas de ouro por País

Cotação Diária da Prata em €

Cotação Diária da Ouro em €

Contacte-nos

Rua de Santo André - Centro Comercial Parque da Cidade Loja L, 2º Piso 4560 - 221 Penafiel Telefone:+351 255 214 495 Email:info@elementum.pt
Telefone: +351 255 214 495 Email: info@elementum.pt

Os Ciclos Económicos

Os Ciclos Económicos



Neste artigo, pretendo expôr o básico da Teoria Austríaca dos Ciclos Económicos – TACE (desenvolvida por Ludwig von Mises em sua obra The Theory of Money and Credit), que é usada para explicar as crises económicas e financeiras. Isto requer uma compreensão dos conceitos de inflação e dos juros.


Os bancos centrais tentam manter as taxas básicas de juros no nível que desejam. A forma como esse processo ocorre não é tema para este artigo. Os mais curiosos podem ver um pouco de como isto ocorre na zona euro, no Brasil (parte 1 e parte 2), e nos EUA (parte 1  e parte 2). O que é importante mencionar aqui é que a taxa básica de juros, se fosse deixada livre, refletiria a preferência temporal presente dos indivíduos, e, assim, refletiria a quantia de poupança disponível. Se as taxas de juros estão baixas, significa que há uma baixa preferência temporal e uma abundância de crédito (poupança) e uma demanda genuína por investimentos de longo prazo que requerem muitos recursos. Assim, os investimentos seriam realizados e gerariam empregos e lucros que poderiam ser mantidos de forma sustentável, uma vez que haveria uma poupança para ser investida e consumida durantes estes empreendimentos.


Para esclarecer, imagine a situação de Robinson Crusoé, que está sozinho em uma ilha, sem recursos além dos lá disponíveis. O que ele terá de fazer? Primeiro, deve garantir sua sobrevivência. Ele vai pescar para poder alimentar-se. Mas como ele não possui nenhum bem de capital, gastará muito tempo (recurso escasso) pescando e conseguirá apenas, digamos, quatro peixes por dia. Mas, em um belo dia, ele decide consumir apenas três peixes, para que no dia seguinte pesque apenas três (tendo quatro para consumir) e use o tempo que sobra para produzir uma rede (o bem de capital) para pescar mais peixes em menos tempo. Sua abstenção de comer um peixe por dia (o peixe que ele "poupou"), e o tempo que ele usou para produzir a rede foi um sacrifício que ele fez para melhorar sua situação nos dias seguintes. Isto é poupança: uma abstenção de consumo (um sacrifício) no presente para obter um benefício no futuro. Ao fazer este sacrifício, Crusoé conseguiu melhorar sua condição e parar de gastar o dia todo apenas para garantir sua sobrevivência. Agora, ele possui mais tempo para adquirir mais recursos, construir mais bens de capital e melhorar sua condição. O empreendimento feito por Crusoé foi, portanto, um sucesso. Ele calculou de maneira eficiente a poupança que seria necessária para poder investir tempo na construção do bem de capital. Portanto, é a poupança que permite realizar investimentos que tornam os indivíduos mais produtivos, melhorando o padrão de vida.


O problema é quando o governo, por meio do banco central, expande o crédito e as taxas de juros caem artificialmente. Como as taxas de juros estão baixas, aparentemente há poupança para sustentar os grandes investimentos que serão feitos com a expansão do crédito. São feitos investimentos em imóveis, construção de estabelecimentos (como centros comerciais/shoppings e restaurantes) e muitos empregos são gerados. Investimentos que antes eram caros (ainda não havia poupança suficiente), agora parecem baratos devido à expansão artificial do crédito, que eleva a renda nominal dos indivíduos, dando a impressão de que sua riqueza real também aumentou. Haverá um aumento da demanda por trabalhadores nestes setores e, portanto, maiores salários que atrairão muitas pessoas para trabalhar nos mesmos. Muitas pessoas investirão tempo e dinheiro para poder trabalhar no setor e colher os frutos de altos salários. O problema é que esta demanda é artificial e não é sustentável. Como não houve poupança genuína para estes investimentos, não houve movimentação de recursos de um setor para outro. Ou seja, outros setores (como serviços) continuam necessitando de recursos e mão de obra porque não houve abstenção de consumo (poupança). Assim, começa a disputa por mão de obra por meio de aumentos salariais. E, com a expansão artificial do crédito, é fácil aumentar os salários nominais. O mercado de ações também sobe e muitos começam a investir nas mesmas. Tudo parece estar ótimo. As pessoas estão entusiasmadas com seus altos salários e o aumento do padrão de vida.


Mas chega um momento em que a festa acaba. O crédito artificial inevitavelmente criará distorções na economia. Haverá vários maus investimentos (investimentos insustentáveis devido à falta de poupança prévia) que terão de ser encerrados. Ou seja, haverá demissões, e, na melhor das hipóteses, salários mais baixos. O mercado de ações sofrerá forte queda. A fase do ‘boom’ terminará e chegará o momento do ‘bust’ e da recessão, quando ocorre uma ‘limpeza/liquidação’ dos maus investimentos, ou seja, os recursos são realocados para serem utilizados de forma eficiente. E, quanto maior tiver sido o boom (quanto mais intensa e prolongada tiver sido a expansão artificial de crédito), mais tempo levará para realocar os recursos e mais dolorosa e prolongada será a recessão. Além disto, quanto maior for a estrutura produtiva do investimento (quanto maior for a intensidade de capital), maior será o impacto, pois há mais sensibilidade às taxas de juros. Um exemplo é o setor imobiliário.


Os recursos usados para esses investimentos foram, portanto, desperdiçados. Assim, os recursos tornam-se ainda mais escassos, e assim, há menos recursos para realizar investimentos produtivos e sustentáveis. Há menos possibilidades de realizar investimentos de longo prazo, que oferecem salários reais maiores. Os empreendedores vão se concentrar mais em investimentos de curto prazo: bens de consumo imediato (essenciais), como roupas ou alimentos, etc. Ou focarão mais no mercado financeiro, em busca de ativos que possam ser lucrativos (geralmente de renda fixa, pois, numa recessão, ações são mais arriscadas) ou, pelo menos, que protejam sua riqueza da inflação gerada pela expansão de crédito.


Para esclarecer, imagine a seguinte situação: você é dono de um restaurante bem frequentado. Tudo está bem. Você pode pagar seus funcionários e ficar com uma fatia do lucro para expandir o negócio ou fazer outro investimento. Porém, haverá um grande evento desportivo em sua cidade que durará dois meses. Muitos turistas visitarão sua cidade e seu restaurante terá mais clientes. Você se anima e amplia a capacidade do estabelecimento, aumentando as opções do cardápio, contratando novos funcionários e comprando novos bens de capital. Mas, quando o evento acaba e os turistas voltam aos seus países, o tamanho de sua clientela volta ao normal e todos os investimentos que você fez não são mais necessários. Portanto, você terá de demitir a maior parte do pessoal. Pior: todos os bens de capital que você adquiriu por causa desse evento não são mais necessários, foi simplesmente um desperdício de dinheiro. Ou seja, você tem menos recursos agora porque não sabia avaliar a demanda do seu negócio e por isso investiu mais do que deveria.


Agora imagine isto acontecendo em larga escala, nos diversos setores da economia, porque o governo interferiu nos juros e alterou e alterou a perceção da disponibilidade de recursos de todos os agentes económicos. Diversos maus investimentos como este ocorrerão ao mesmo tempo e haverá uma recessão.

 

Vamos supor também que você faliu por causa deste mau investimento. Os recursos utilizados por você serão, portanto, liberados para outro empreendedor, que poderá usá-los com mais eficiência. Quando uma empresa vai à falência é preciso deixar que isto aconteça, pois os recursos têm de ser liberados para que tenham a chance de serem empregados de forma produtiva.


O problema é que, como já mencionado, quando o governo reduz artificialmente as taxas de juros e expande o crédito, ocorrem muitos maus investimentos ao mesmo tempo. Neste caso, a quantidade de recursos que precisam ser realocados é muito maior. E piora quando o governo salva empresas (geralmente bancos ou grandes camaradas corporativos do governo) com impostos e/ou endividamento (financiado por meio de expansão monetária).

 

Se não houvesse um banco central garantindo o cartel de bancos públicos e privados, tais festas, como a da expansão artificial do crédito, não seriam possíveis de manter. Se um banco começasse a expandir seu crédito artificialmente e os indivíduos percebessem que suas contas não estão devidamente garantidas, eles iriam correr para retirar seu dinheiro daquele banco e pôr em outro mais responsável (sem um banco central para garantir o arranjo, haveria mais incentivos para a concorrência).


Para compreender melhor o básico da TACE, recomendo este livro do professor Ubiratan Jorge Iorio, o pequeno livro de Murray Rothbard, Economic Depressions: Their Cause and Cure e este pequeno vídeo do economista Fernando Ulrich.

 

André Marques