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BCE ou FED: Qual é o mais Inflacionista?

BCE ou FED: Qual é o mais Inflacionista?



O Banco Central Europeu (BCE) e o Federal Reserve (Fed), banco central americano, têm sido mais inflacionistas desde o ano passado, assim como a maioria dos outros bancos centrais. Mas é necessário verificar as intensidades das inflações monetárias de cada um para compreender melhor a diferença da influência no aumento dos preços na zona euro e nos EUA.


Primeiro, vale a pena observar o índice dólar (DXY), que mede o valor do dólar americano (USD) em relação a uma cesta de principais moedas do mundo: euro, libra esterlina, iene japonês, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço (vale notar que mais da metade deste índice é baseado na cotação do euro). Podemos também incluir o Euro em relação ao USD (linha laranja), e, assim, verificamos que há uma relação inversa. Ultimamente, portanto, o USD tem se valorizado em relação ao euro.


Gráfico 1 - DXY e Euro/USD (Janeiro 2021 - Agosto 2021)


DXY (Linha Azul); EURO/USD (Linha Laranja).

Fonte: TradingView - Elaboração Própria.


Porém, apesar de o USD estar valorizado em relação ao euro, a inflação de preços nos EUA está a 5.4%; na zona euro, 2.2%:


Gráfico 2 - Inflação de Preços dos EUA (2016-2021)

   

Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Gráfico 3 - Inflação de Preços da Zona Euro (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Tanto o BCE quanto o Fed têm feito políticas monetárias bastante expansionistas, como já é sabido. O gráfico seguinte mostra o balanço de cada um deste bancos centrais, que têm crescido a um ritmo maior do que os aumentos que ocorreram desde 2008. Quando um banco central aumenta seu balanço significa que está aumentando sua base monetária/M0. É possível observar que o balanço do BCE subiu mais desde março de 2020. E, portanto, O BCE fez um Quantitative Easing (QE) maior do que o do Fed.


Gráfico 4 - Balanço do Fed e do BCE (2008-2021)


Balanço do Fed (Linha Azul, Eixo da Direita); Balanço do BCE (Linha Vermelha, Eixo da Esquerda).

Fonte: St. Louis Fed - Elaboração Própria.


Porém, como mencionado aqui, o QE, por si só, não é suficiente para aumentar a inflação de preços imediata e significativamente. É necessário observar os outros agregados monetários além da base monetária/M0, sobretudo o M1 e o M2. Vejamos como se comportaram estes dois agregados na zona euro e nos EUA nos últimos cinco anos.


Gráfico 5 - M1 da Zona Euro (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Gráfico 6 - M1 dos EUA (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


É possível ver que o M1 da zona euro aumentou de pouco menos que €9 mil bilhões/trilhões no início de 2020 para quase €10.8 mil bilhões/trilhões atualmente. Já o M1 dos EUA sofreu um aumento maior: de pouco mais de US$ 4 mil bilhões/trilhões no início de 2020 para os atuais US$ 19.3 mil bilhões/trilhões.

 

Gráfico 7 - M2 da Zona Euro (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Gráfico 8 - M2 dos EUA (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


O M2 da zona euro aumentou de cerca de € 12 mil bilhões/trilhões no início de 2020 para cerca de € 14.2 mil bilhões/trilhões atualmente. O M2 dos EUA, por sua vez, subiu de cerca de US$ 15.8 mil bilhões/trilhões no início de 2020 para os atuais US$ 20.4 mil bilhões/trilhões.


O M1 e o M2, portanto, subiram mais nos EUA do que na zona euro. Este é um dos principais motivos pelos quais a inflação de preços nos EUA aumentou mais. E isto pode ser observado, também, pela política fiscal relativamente menos agressiva da zona euro. Como mencionado aquios EUA têm feito um enorme QE simultâneo a um grande défice fiscal, o que fez com que o M1 e o M2 subissem imediata e significativamente. A zona euro fez o mesmo (o BCE também tem adquirido títulos de dívida dos países), mas em menor intensidade. Veja nos gráficos a seguir que a dívida pública da zona euro subiu de cerca de € 10 mil bilhões/trilhões no início de 2019 para €11.1 mil bilhões/trilhões no final de 2020 (e de 83.9% do PIB para 98% do PIB, respetivamente).


Gráfico 9 - Dívida Pública da Zona Euro (2011-2020)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Gráfico 10 - Dívida Pública da Zona Euro em Relação ao PIB (2011-2020)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Já a dívida pública dos EUA, subiu de US$ 22 mil bilhões/trilhões no início de 2019 para US$ 27.7 mil bilhões/trilhões no final de 2020 (atingindo, recentemente, US$ 28.49 mil bilhões/trilhões). Em percentagem do PIB, subiu de 106.9% em 2019 para 107.6% em 2020.


Gráfico 11 - Dívida Federal dos EUA (2016-2021)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Gráfico 12 - Dívida Federal dos EUA em Relação ao PIB (2011-2020)


Fonte: Trading Economics - Elaboração Própria.


Portanto, a zona euro está fiscalmente mais contida que os EUA e com menor inflação de preços. Mas por que o USD não se desvaloriza significativamente em relação ao euro? É preciso lembrar que os EUA é um dos poucos países desenvolvidos que ainda possui taxas de juro positivas (tanto a taxa básica de juros, quanto os juros de títulos públicos de médio e longo prazo). A zona euro não só está com a taxa básica de juros negativa, como muitos de seus países possuem títulos de dívida a taxas negativas (e os títulos de longo prazo ou estão com taxas negativas, ou com taxas positivas muito baixas, considerando seus riscos). Isto acaba por atrair mais fundos para o USD do que para o Euro, o que se reflete no câmbio. Além disto, o USD ainda é a principal moeda de reserva do planeta (apesar da recente desdolarização por parte de bancos centrais) e é a principal moeda na qual as empresas se endividam. Isto aumenta a demanda por USD, o que ajuda a apreciar seu câmbio.


Entretanto, como já mencionado, tanto o FED quanto o BCE têm sido ainda mais expansionistas recentemente. E, caso continuem neste ritmo (ou diminuam, mas continuem a ser expansionistas), independentemente de continuar a haver, ou não, um aumento imediato e significativo da inflação de preçosas moedas tendem a perder valor, pois o mero aumento da base monetária desvaloriza a moeda ao longo do tempo. Ambos estão presos no dilema de aumentar os juros (e prejudicar a economia e os próprios governos) ou manter os juros artificialmente baixos (e gerar mais distorções na economia, deixando-a mais frágil e suscetível a crises, além de gerar mais pressão na inflação de preços). Se ambos os bancos centrais seguirem com o seu histórico das últimas duas décadas, escolherão a segunda opção.



André Marques