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Como e Por Que os Governos Mentem Sobre a Inflação

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Como e Por Que os Governos Mentem Sobre a Inflação



As taxas de inflação de preços divulgadas pelos governos são, no mínimo, um pouco menores do que realmente são. Cada governo possui uma metodologia para calcular a taxa de inflação de preços, mas em geral, são feitas para produzirem um resultado menor. Neste artigo, trago o exemplo do governo dos EUA e como a respetiva taxa de inflação de preços ao consumidor (Consumer Price Index – CPI) é artificialmente diminuída (houve diversas mudanças na metodologia desde 1982) e como os governos se beneficiam de uma inflação de preços artificialmente baixa.


Primeiramente, vejamos a diferença entre o valor do CPI oficial e o CPI calculado com a metodologia utilizada em 1980.


A taxa anual oficial do CPI atingiu 7% em dezembro de 2021 (para saber mais sobre este aumento da inflação de preços nos EUA, clique aqui):


Figura 1 – CPI (JAN 2021-DEZ 2021)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Porém, se calculado através da metodologia usada em 1980 (conforme feito pelo Shadow Government Statistics), o CPI anual ficou pouco acima de 15% em dezembro de 2021:

   

Figura 2 – CPI Oficial e CPI Baseado na Metodologia de 1980 (1980-2021)


CPI Oficial (Linha Vermelha); CPI Baseado na Metodologia de 1980 (Linha Azul).

Fonte: shadowstats.com


Agora vejamos as principais maneiras através das quais o governo dos EUA diminui artificialmente o CPI e que não eram usadas antes da década de 1990.


- Preços de Casas e das Rendas


A metodologia atual do CPI não inclui os preços das casas. E cerca de 1/4 do cálculo da metodologia atual do CPI é representado pelo owner's equivalent rent (uma pesquisa feita a pessoas proprietárias de imóveis que respondem à questão de quanto elas acham que poderiam receber por um arrendamento de seu imóvel; ou seja, é apenas um palpite dado pelos proprietários). Em dezembro de 2021, o preço das casas tinham sofrido um aumento de 20% desde o início de 2021. No mesmo período, as rendas aumentaram cerca de 17%. Já o owner's equivalent rent sofreu um aumento anual de 3.5% .Se usarmos o aumento dos preços da casas de 20% em vez dos 3.5% do owner's equivalent rent, a inflação de preços anual de 6.8% registada em novembro de 2021 seria 11% (apenas se esta mudança fosse feita).

O aumento anual (valor de julho de 2021) das rendas observados pelos preços do realtor.com (que possui várias propriedades para arrendar) foi de 25%. Este valor representa muito mais fielmente o aumento dos preços das rendas, já que os preços listados no site são preços que as pessoas realmente pagam.


- Substituição


A substituição é um conceito que afirma que se o preço de algo aumenta, os consumidores naturalmente comprarão menos do mesmo e o substituirão por outro. Peter Schiff dá o exemplo do bife e do frango. Se o preço do bife amenta muito, os consumidores param de comprá-lo e passam a comprar frango. Então o que o governo argumenta é que se os consumidores não estão a comprar as coisas mais caras não há motivo para as mesmas estarem inclusas no cálculo do CPI, já que as pessoas não estão a comprá-las e, portanto, o custo de vida (de acordo com este raciocínio genial) não aumentou. Como o Peter Schiff afirma, por esta lógica, se o frango se torna tão caro ao ponto de as pessoas não poderem pagar pelo mesmo e passarem a comer comida de cães, então é só tirar o preço do frango do cálculo do CPI e usar o preço de comida de cães e não haverá inflação de preços. O governo diria que as pessoas não estão a pagar mais para comer. Afinal, elas estão a comer (comida de cães, mas não estão a passar fome) e, portanto, o custo de vida não baixou. Nem mesmo um mágico profissional pode superar esta mágica do governo.


Obviamente este argumento é um absurdo. Se a inflação de preços mensura o aumento do padrão de vida e este padrão de vida inclui comer bife, então o preço do mesmo deve ser incluído, mesmo se este for substituído por outro alimento.


- Aumento da Qualidade dos Produtos e Serviços


O governo argumenta que aprimoramentos da qualidade dos produtos e serviços devem ser inclusos CPI, pois, se os preços aumentaram, mas a qualidade melhorou, talvez o preço não tenha mesmo aumentado (sim, o consumidor está a pagar mais, mas está a levar mais e/ou com melhor qualidade). Por exemplo, se os preços aumentam 10%, mas (segundo o governo) o produto ou serviço é 20% melhor do que aquele que o consumidor costumava comprar, então o preço não aumentou de 10%, mas, sim, diminuiu de 10% (pois o consumidor está a levar 20% a mais ou 20% melhor e só está a pagar 10% a mais).


Peter Schiff argumenta que este raciocínio também não faz sentido pois, em vários casos, só porque um produto ficou melhor não necessariamente significa que entrega uma melhor experiência ao consumidor (que paga por estas melhorias independentemente de utilizá-las ou não). Peter Schiff cita o exemplo de eletrónicos como computadores e portáteis, que ficam cada vez melhores com o passar dos anos, mas nem todas as pessoas utilizam todas os aprimoramentos (como um hard drive ou um SSD com mais espaço, mas o utilizador não usa nem sequer 1/4 deste espaço). Claro alguém pode argumentar que há hard drives e SSD’s de 256GB, 512 GB, 1 TB, 2TB, etc, e o consumidor pode escolher um que mais se adeque às suas necessidades. Porém, há diversos outros fatores que são considerados pelo consumidor ao comprar um computador ou portátil, como o processador, a gráfica, RAM, etc, etc. E em muito casos, é difícil achar algo que seja 100% do jeito que co consumidor gostaria, a não ser que o consumidor compre os componentes separadamente e monte o seu PC (mas nem todos têm conhecimento e/ou paciência para tal tarefa). Schiff também argumenta que, quando os produtos melhoram e os preços aumentam não é porque ficaram melhores, mas, sim porque a inflação monetária feita pelo governo pressiona os preços para cima. Em uma economia em que não há intervenções do governo (inflação, impostos, gastos públicos e regulações) os preços tenderiam a baixar e, ao mesmo tempo, a qualidade dos produtos aumentaria, já que haveria muito mais investimento em produtividade.


Além disto, Schiff argumenta que, em muitos casos, a qualidade dos produtos e serviços diminui e não há um ajuste correspondente no CPI. Ele cita o exemplo das tarifas de aviação, que costumavam incluir os custos das bagagens, refeições, travesseiros e cobertores, etc, e hoje têm de ser pagos separadamente. Segundo o governo, os preços das tarifas de aviação não estão a subir muito porque não são ajustadas à grande degradação da qualidade do serviço. Schiff aponta a hipocrisia de dizer que os computadores estão melhores (e, então, considerar que os preços baixaram) e, ao mesmo tempo, considerar que os preços das tarifas de aviação não aumentaram (considerando que o consumidor consegue muito menos ao pagar só pela tarifa do que antes, já que agora é necessário pagar separadamente pelos serviços que costumavam ser incluídos). Schiff também cita exemplos de empresas que, mesmo mantendo os preços dos seus produtos e serviços inalterados, passam a substituir materiais mais caros e melhores por outros mais baratos e de qualidade inferior. Mantêm o preço, mas reduzem a qualidade (veja mais exemplos disto aqui.


Ou seja, o governo, para diminuir artificialmente a taxa de inflação de preços, inclui aqueles produtos e serviços que melhoraram e diz que seus preços baixaram, e ignora todos aqueles que ficaram piores apesar de os preços não terem aumentado.


Como os Governos se Beneficiam de uma Inflação de Preços Artificialmente Baixa


Irwin Schiff, o pai do Peter Schiff, costumava dizer que esperar que o governo dê informações honestas sobre a inflação de preços é o mesmo que esperar que a máfia dê informações honestas sobre o crime. Obviamente os mafiosos têm todo interesse em subestimar os números do crime (já que são eles mesmo que estão a cometê-los). Se não há muitos crimes, não é necessário tanto policiamento (e a máfia não precisa gastar tanto dinheiro a subornar polícias).


O governo tem o mesmo incentivo para divulgar uma taxa de inflação de preços artificialmente baixa. Vejamos alguns dos motivos:


- Eleitores não Gostam de Inflação de Preços Alta


Este é o motivo mais óbvio. Como mencionei aqui, os governos falam que a inflação de preços é benéfica aos consumidores. Porém, qualquer pessoa que tenha o mínimo de bom-senso rapidamente percebe que qualquer taxa de inflação de preços é ruim para o consumidor pois seu padrão de vida diminui (já que este não consegue adquirir a mesma quantia de bens e serviços, com a mesma qualidade, do que antes). E, portanto, eleitores não gostam de inflação de preços e tendem a culpar o político que está no poder (embora, em muitos casos, a culpa não é só de quem está no poder, mas, também de quem estava no poder antes e também estava a aumentar a oferta monetária). Se o governo divulga uma inflação de preços artificialmente baixa, os eleitores têm um motivo a menos para culpar o político que está no poder.


- A Inflação de Preços Revela o Custo dos Programas do Governo


As pessoas adoram os programas do governo (como os cheques de estímulo dos EUA entregues às pessoas durante a pandemia). Porém, estes programas seriam muito menos populares se as pessoas soubessem o custo dos mesmos. A maior parte dos gastos dos governos não são financiados por impostos (o que é mais diretamente sentido pelos eleitores), mas, sim, por endividamento e/ou inflação (aumento da oferta monetária), através dos quais os eleitores não entendem como acabam por pagar (até pagam mais do que pagariam se fosse por impostos, pois o endividamento traz pagamentos de juros e a inflação traz aumentos de preços).


Através da inflação, o governo esconde o custo de seus programas populares e consegue mais votos. A inflação nada mais é do que um imposto disfarçado.


- Com uma Inflação de Preços Artificialmente Baixa, o PIB Real Fica Artificialmente Mais Alto


A estatística do PIB (Produto Interno Bruto) é muito usada pelos governos para dizer que a suas políticas económicas estão a ser efetivas (nota: um PIB mais alto não necessariamente significa uma melhoria da atividade económica; veja o porquê aqui e aqui). O PIB real, que considera o efeito da taxa de inflação de preços, acaba por ser maior se esta for artificialmente reduzida. Assim, o governo pode fingir que a economia está a crescer.


- Segurança Social


Peter Schiff cita o exemplo da segurança social dos EUA, cujos pagamentos são indexados à inflação. Ou seja, todos os anos os pagamentos são ajustados para cima, baseado no CPI ocorrido no ano. Já que a segurança social dos EUA (assim como a de praticamente todos os governos) está falida, o governo não tem dinheiro para pagar e os políticos não têm incentivos para cortar os pagamentos da segurança social ou cortar outros gastos para mantê-los. Então, uma das maneiras de diminuir estes pagamentos é através de uma inflação de preços artificialmente reduzida. Assim, os ajustes anuais são menores do que seriam se o cálculo da inflação de preços fosse mais honesto.

  

- Mais Receitas para o Governo


Uma inflação de preços artificialmente reduzida também aumenta as receitas do governo. Schiff argumenta que muitos impostos são indexados ao CPI. Portanto, um CPI menor faz com que os indivíduos tenham de pagar mais impostos, pois os limites inferiores (por exemplo, dos rendimentos) a que cada taxa de imposto é aplicada não são ajustados o suficiente. Para exemplificar, imagine que você receba 1000 dólares por mês e pague 15% de imposto de renda. Imagine também que, os rendimentos até 900 dólares são isentos de imposto de renda. Se o CPI (sem a redução artificial feita pela metodologia de cálculo do governo) for 10% (o que significa que, em termos reais, você recebeu 900 dólares), você deveria, então, passar a ser isento do imposto de renda. Porém, se o governo usa uma metodologia que diminui o CPI e o valor foi de 5%, então o seu rendimento em termos reais (de acordo com o governo) é de 950, e, portanto, você deve continuar a pagar os 15% de imposto de renda.


- O Governo Paga Juros Menores


Com um CPI artificialmente baixo, o governo paga menos juros sobre a dívida. Os governos costumam emitir títulos cujos juros ou o principal são indexados à taxa de inflação de preços. Nos EUA, por exemplo, há o TIPS (Treasury Inflation-Protected Security), que é o título de dívida federal que paga o principal corrigido pelo CPI. Como o CPI é desenhado para lançar uma inflação de preços mais baixa do que realmente é, a correção do principal acaba por ser menor (veja mais detalhes do porquê de o TIPS não ser uma boa proteção contra o CPI aqui).


O governo também passa a pagar juros menores sobre os títulos que não são indexados ao CPI. Um CPI artificialmente baixo diminui as expectativas dos investidores em relação a inflação de preços. Assim, os juros dos títulos passam a ser menores (inclusive os de prazos mais longos).

 

Conclusão


Como já mencionei, as taxas de inflação de preços divulgadas pelos governos são, no mínimo, um pouco menores do que realmente são. No caso dos EUA, como vimos no início do artigo, usando a metodologia de 1980, o CPI é mais do que o dobro do que o divulgado pelo governo.


Governos têm diversos incentivos para distorcer os indicadores económicos a seu favor. Não são entidades que têm de servir satisfatoriamente quem os financia. Afinal, os pagadores de impostos são forçados a financiar o governo, satisfeitos ou não com o serviço prestado. Sem o incentivo correto, os governos são ineficientes e os eleitores em geral ficam insatisfeitos e irritados. Para acalmá-los um pouco, os governos cozinham os indicadores económicos com temperos especiais.

 


André Marques