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Quando um Aumento da Oferta Monetária não Gera Inflação de Preços - O Brasil na Década de 2000

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Quando um Aumento da Oferta Monetária não Gera Inflação de Preços - O Brasil na Década de 2000



Como mencionamos aqui, um aumento da base monetária (M0), por si só, não gera inflação de preços. Esta só tende a aumentar se houver um aumento dos agregados monetários M1 e M2, nos quais o dinheiro que efetivamente circula na economia está inserido. No artigo, mostramos que a inflação de preços nos EUA não aumentou significativamente após as rodadas de Quantitative Easing (QE) efetuadas entre 2008 e 2014. Apenas após o QE efetuado a partir de março de 2020 é que houve um aumento significativo da inflação de preços, pois houve aumento do M1 e do M2.


Porém, pode haver casos em que (ao menos por algum tempo), mesmo ocorrendo um aumento do M1 e do M2, a inflação de preços não aumenta. Um exemplo é o Brasil na década de 2000.


No início do primeiro mandato de Lula, em 2003, o governo adotou medidas para conter o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a principal taxa de inflação ao consumidor do Brasil, que atingira, no final de 2002, 12.5%) e a taxa de câmbio (que estava a quase 4 dólares americanos) para tentar recuperar a confiança de investidores estrangeiros e agências de classificação de risco. Este cenário aconteceu devido às expectativas em relação ao governo de Lula, pois em sua campanha em 2002 falava em nacionalizar mais a economia, quebrar contratos e dar calotear a dívida.


Assim, o governo formou uma equipe económica composta por economistas relativamente ortodoxos, como Marcos Lisboa, Murilo Portugal, Joaquim Levy (ministro das finanças no início do segundo mandato de Dilma Rousseff), Alexandre Schwartsman, Ilan Goldfajn (presidente do BACEN, o banco central do Brasil, entre junho de 2016 e fevereiro de 2019) e Afonso Beviláqua. A confiança começou a ser recuperada quando a equipe anunciou que a política económica seria composta por cumprimento de contratos, uma política monetária e fiscal sólida e um superávit primário (saldo positivo de todas as receitas e despesas do governo, excluindo gastos com pagamento de juros sobre a dívida pública).


E, para conter a alta do IPCA, a taxa SELIC (a taxa básica de juros do Brasil) foi elevada para 26.5%. Com isto, o IPCA caiu de 17% para 5.2% em um ano. Este rápido declínio, somado aos fatores acima, gerou uma confiança que trouxe investimentos e crescimento económico.


Observe como o IPCA (figura 1) aumenta justamente em outubro de 2002, quando Lula foi eleito, e só começa a cair no segundo semestre de 2003. E veja a taxa SELIC (figura 2) no mesmo período:


Figura 1 – IPCA (2002-2004)



Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Figura 2 – Taxa SELIC (2002-2004)



Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Com o IPCA mais baixo e uma política monetária e fiscal relativamente sólida, o ambiente era razoável para a realização de investimentos.


Porém, a partir de 2004, o governo começou a expandir o crédito. Veja o M0 (figura 3), o M1 (figura 4) e o M2 (figura 5) entre 2004 e 2016:


Figura 3 – M0 do Brasil (2004-2016)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Figura 4 – M1 do Brasil (2004-2016)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Figura 5 – M2 do Brasil (2004-2016)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Veja também que o crédito garantido ao setor privado começa a aumentar no mesmo momento:


Figura 6 – Crédito Garantido ao Setor Privado (1994-2012)


Fonte: BACEN – Retirado de Leandro Roque | O que realmente permitiu o grande crescimento econômico brasileiro da última década.


É importante observar que o processo de concessão é inerentemente inflacionário. O banco, seja público ou privado, ao conceder crédito, adiciona dígitos eletrónicos à conta do cliente e este dinheiro gerado entra na economia. Pode-se notar pela evolução do M1 e do M2 que o dinheiro que estava efetivamente na economia aumentou significativamente. Ou seja, toda esta inflação monetária deveria levar a uma alta expressiva do IPCA. Mas não o que aconteceu. Veja o IPCA entre 2004 e 2016. Observe que durante a maior parte do mandato de Lula (2003-2010) ficou abaixo de 7%:


Figura 7 – IPCA (2004-2016)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


Como isto foi possível? Segundo o economista Leandro Roque, o motivo foi o dólar americano (USD), que no mesmo período sofreu uma grande desvalorização. O USD desvalorizou-se em relação às principais moedas do mundo - euro, libra esterlina, iene japonês, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço - (figura 8) e em relação ao real (figura 9). A partir de 2003, ocorreu uma desvalorização do USD, que só começa a recuperar-se em 2014 (quando Fed parou de fazer QE). Em relação ao real, o USD começou a recuperar-se já em 2012.


Figura 8 – DXY (2001-2017)


Fonte: TradingView – Elaboração Própria.


Figura 9 – USD/Real (2001-2017)


Fonte: TradingView – Elaboração Própria.


Por que isto aconteceu? Em 2003, não se deu início à Guerra do Iraque, mas também o Fed estava a expandir o M0 e a baixar a taxa de juros (que atingiu 1% em julho de 2003). A bolha imobiliária estava a aumentar e os agregados M1 e M2 aumentavam à medida que os empréstimos imobiliários ocorriam. As guerras, por sua vez, são extremamente prejudiciais à economia porque os governos costumam recorrer à inflação monetária para financiá-las. Após a I Guerra Mundial, por exemplo, os participantes tiveram suas moedas fortemente inflacionadas. Só os EUA, que só entraram na guerra no final, não chegaram a inflacionar tanto. E aquela inflação foi tão grave que os governos deixaram de cumprir o lastro em ouro, pondo fim ao padrão-ouro clássico, como podemos ver no capítulo IV de ‘O que o governo fez com nosso dinheiro?’, de Murray Rothbard (Português – BR e Inglês – US).


Veja novamente o gráfico 7 e observe que o IPCA se manteve relativamente estável no período em que o USD estava desvalorizado em relação ao real. A desvalorização do USD frente ao real ajudou a conter a pressão na inflação e preços que ocorreria com a expansão da oferta monetária. Como afirma Leandro Roque, com a expansão do crédito, a renda nominal das pessoas singulares/físicas aumentou. E, com o USD desvalorizado, os produtos e serviços tiveram preços baixos, apesar desta expansão monetária; e, portanto, a renda real aumentou. O USD influencia vários preços da economia, como medicamentos (a maior parte da química fina usada na produção de remédios é importada), carne (a soja é usada na alimentação do gado e a soja é precificada em USD: USD baixo, preço da carne baixo), pão (o trigo também é cotado em USD), de todos os produtos e serviços que utilizam petróleo (também cotados em USD), contas de energia elétrica e arrendamentos/aluguéis (ambos medidos pelo IGP-M,  que mede commodities e matérias-primas, ambos cotados em USD), entre outros preços.


E o governo também se beneficiou disto, podendo aumentar seus gastos por meio da inflação monetária sem ter consequências graves (o aumento do IPCA). Mas isto não poderia durar para sempre. Quando o USD começou a se valorizar, o arranjo começou a ruir. Como é possível ver na figura 9, o real começou a perder valor para o USD a partir de 2013 (sobretudo, a partir de 2014). E, como visto na figura 7, o IPCA começou a subir a neste mesmo período. Há outros motivos pelos quais isto ocorreu. Mas isto será assunto de outro artigo.



André Marques