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Banco Central dos EUA Anuncia Mais Uma Redução de Compras de Ativos e Elevações da Taxa de Juros em 2022

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Banco Central dos EUA Anuncia Mais Uma Redução de Compras de Ativos e Elevações da Taxa de Juros em 2022



Após anunciar o tapering (expressão referente a uma diminuição sistemática das compras de ativos por parte do banco central) em novembro, o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, anunciou mais uma redução das compras de ativos na semana passada e três elevações dos juros em 2022.


Antes do anúncio do tapering em novembro, o Fed estava a comprar cerca de US$ 120 mil milhões em ativos por mês (US$ 80 mil milhões em títulos de dívida federais e US$ 40 mil milhões em títulos lastreados em hipotecas, as Mortgage Backed Securities – MBS). Ou seja, o balanço do Fed (que já ultrapassou os US$ 8.7 trilhões) vinha a sofrer aumentos de cerca de 120 mil milhões todos os meses (o que significa que a base monetária, o M0, aumentava a um ritmo semelhante):


Figura 1 – Balanço do Fed e M0 (2008-2021)


M0 (Linha Vermelha); Balanço do Fed (Linha Verde).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


E, como o Fed tem comprado muitos títulos de dívida federais recém-emitidos (para cobrir boa parte do défice orçamentário federal - figura 2), o dinheiro criado pelo Fed é gasto pelo governo e entra diretamente na economia, aumentando os agregados M1 e M2 (M1: moeda em circulação e depósitos à ordem; M2: M1 + depósitos a prazo), como é possível ver na figura 3. E, desta forma, a inflação de preços ao consumidor anual (o CPI – Consumer Price Index) disparou neste ano, atingindo 6.8% (maior taxa desde 1982) em novembro (figura 4):


Figura 2 – Défice Orçamentário dos EUA (2011-2021)


Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Figura 3 – M1 e M2 dos EUA (2008-2021)


M1 (Linha Preta); M2 (Linha Amarela).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Figura 4 – CPI (1980-2021)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


O Core CPI (que exclui preços de alimentos e energia), atingiu a taxa anual de 4.9% em novembro (maior taxa desde 1991):


Figura 5 – Core CPI (1980-2021)


Fonte: Trading Economics – Elaboração Própria.


E o Flexible Price Consumer Price Index, que mensura preços de itens do CPI que são muito mais flexíveis às condições económicas, possuindo uma variação maior, está em 17.9%, maior nível de toda a série histórica deste índice, que começou em 1967:


Figura 6 - Flexible Price Consumer Price Index (1967-2021)


Flexible Price Consumer Price Index (Linha Laranja); Flexible Price Consumer Price Index Excluindo Alimentos e Energia (Linha Vermelha).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Em novembro, o Fed anunciou que iria diminuir as compras de títulos de dívida federais em US$ 10 mil milhões por mês e de MBS’s em US$ 5 mil milhões por mês. Ou seja, seria uma redução de US$ 15 mil milhões por mês. Porém, na semana passada, anunciou que o tapering sofrerá mais uma redução (de US$ 30 mil milhões por mês - 20 milhões para títulos de dívida federais e 10 mil milhões para MBS’s) e que, partir de janeiro, o Fed irá comprar mensalmente, pelo menos, US$ 40 mil milhões de títulos de dívida federais e US$ 20 mil milhões de MBS’s. Além disto, anunciou que, na próxima reunião do FOMC (Federal Open Market Committee, o comité de política monetária do Fed), este ritmo de redução deve permanecer. Ou seja, a partir de fevereiro, é possível que as compras de ativos pelo Fed sofram mais uma redução de US$ 30 mil milhões. É possível, portanto, que, ainda no primeiro semestre de 2022, o Fed encerre o tapering, parando de aumentar o balanço.


Porém, pelo menos até agora, o Fed não fez um tapering significativo. Apenas entre 8 e 15 de dezembro o balanço do Fed sofreu um aumento de US$ 92.1 mil milhões. Como ainda temos duas quartas-feiras até o fim de dezembro (os dados do balaço são atualizados todas as quartas-feiras), teremos de ver se ainda haverá grandes aumentos. Além disto, assim como o fez em novembro, o FOMC afirmou que “está preparado para ajustar o ritmo de compras se houver mudanças nas perspetivas económicas”. Ou seja, há uma abertura para o Fed aumentar o ritmo de compras de ativos caso haja um mínimo de perturbação no mercado financeiro ou na economia real.


O Fed não aumentou a taxa de juros. O IORB (Interest Rate on Reserve Balances) que é a principal taxa que o Fed utiliza para influenciar o FFR (Federal Funds Rate, a taxa básica de juros dos EUA) está em 0.15%. Em julho de 2021, o IORB substituiu o IOER (Interest Rate on Excess Reserves, a taxa de juros que os bancos recebiam do Fed sobre as reservas em excesso que mantinham junto ao Fed e que era a principal taxa que o Fed utilizava, desde 2008, para influenciar o FFR) e o IORR (Interest Rate on Required Reserves, a taxa de juros sobre as reservas compulsórias que os bancos devem manter junto ao Fed). Para saber os detalhes sobre como o Fed passou a influenciar o FFR através do IOER a partir de 2008, leia aqui, nas páginas 29 a 35 e leia estes artigos (parte 1 e parte 2).

 

Veja na figura seguinte como o FFR fica quase no mesmo patamar que o IOER (e, agora, o IORB):


Figura 7 – FFR, IOER e IORB (2019-2021)


FFR (Linha Vermelha); IOER (Linha Verde); IORB (Linha Laranja).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


Porém, a projeção da maior parte dos membros do FOMC para o alvo dos juros até o final de 2022 é de 0.75%-1% (atualmente está em 0%-0.25%).Ou seja, o alvo dos juros sofreria três aumentos de 0.25% em 2022.  Veja na figura seguinte a projeção dos membros do FOMC para o alvo do FFR nos próximos anos:


Figura 8 – Projeção dos Membros do FOMC para o FFR


Fonte: Federalreserve.gov


Observe que alguns membros projetam juros acima de 2.5% (patamar em que o FFR estava em dezembro de 2018, quando houve uma queda significativa nos índices de bolsa americanos e em setembro de 2019 houve uma crise no mercado das operações compromissadas e o Fed passou a injetar liquidez neste mercado (na prática, fazendo Quantitative Easing, aumentando seu balanço). O Fed havia começado a diminuir seu balanço no final de 2017 (mas já em setembro de 2019 voltou a aumentá-lo) e começou a subir os juros em dezembro de 2015 (mas voltou a baixá-los no primeiro semestre de 2019).

 

Ou seja, o Fed já não conseguiu diminuir seu balanço e aumentar os juros anteriormente. Da mesma forma, novamente, o mais provável é que a economia não suportaria um aumento de juros. O Fed parou de subir os juros para evitar uma queda significativa dos mercados no final de 2018, quando a taxa de juros havia atingido apenas 2.5%. Naquela época, a dívida federal dos EUA estava em “apenas” US$ 22 trilhões; hoje, já ultrapassou os US$ 29 trilhões. E as dívidas dos estados, dos municípios, de empresas e de consumidores, também estão maiores. Portanto, é possível que o patamar máximo que a taxa básica de juros pode atingir sem que haja complicações no mercado financeiro e na economia real já é menor que 2.5%. O Fed possui um espaço ainda menor para subir juros neste momento (e só diminui confirme as dívidas aumentam).


Além disto, os ganhos não realizados dos bancos comerciais estão a cair e podem tornar-se em perdas não realizadas. Um aumento/diminuição do valor dos ativos que o banco possui em seu balanço representa um ganho/perda não realizada (que ocorreria caso os ativos fossem vendidos). Uma das medidas que o Fed costuma tomar para converter as perdas não realizadas em ganhos não realizados é diminuir o FFR.


Veja na figura seguinte que quando o Fed aumentava o FFR (linha verde, eixo da direita) os bancos passavam a ter perdas não realizadas (linha roxa, eixo da esquerda, abaixo de 0), e, para impedir isto, o Fed passava a diminuir o FFR. Veja também que as recessões económicas (representadas pelas barras cinzas) ocorriam depois ocorrerem perdas não realizadas (o que não significa uma certeza de que haverá uma recessão após futuras perdas não realizadas, já que há outros fatores a serem considerados):


Figura 9 – Ganhos/Perdas Não Realizadas dos Bancos e FFR (1997-2021)


Ganhos/Perdas Não Realizadas dos Bancos (Linha Roxa, Eixo da Esquerda); FFR (Linha Verde, Eixo da Direita).

Fonte: St. Louis Fed – Elaboração Própria.


E uma redução das compras de ativos pelo Fed (ou até uma eventual contração de seu balanço, que significaria venda dos ativos em posse do Fed para os bancos, o que diminuiria o valor dos ativos) e aumento do FFR diminui o valor dos ativos, o que pode fazer com que os bancos venham novamente a ter perdas não realizadas (sendo mais um motivo pelo qual o Fed não deve conseguir aumentar os juros sem que haja complicações no mercado financeiro). 

 


André Marques