Reservas de ouro por País

Cotação Diária da Prata em €

Cotação Diária da Ouro em €

Contacte-nos

Rua de Santo André - Centro Comercial Parque da Cidade Loja L, 2º Piso 4560 - 221 Penafiel Telefone:+351 255 214 495 Email:info@elementum.pt
Telefone: +351 255 214 495 Email: info@elementum.pt

Daniel Lacalle | O Mundo Está a Afogar-se em Dívida

  • Home
  • /
  • Notícias
  • /
  • Daniel Lacalle | O Mundo Está a Afogar-se em Dívida

Daniel Lacalle | O Mundo Está a Afogar-se em Dívida



De acordo com o FMI [Fundo Monetário Internacional], o apoio fiscal global em resposta à crise será de mais de 9 mil bilhões/trilhões de dólares americanos, aproximadamente 12% do PIB mundial. Esta cadeia prematura, claramente apressada, provavelmente excessiva e muitas vezes mal orientada dos chamados planos de estímulo distorcerá as finanças públicas de uma forma que não víamos desde a II Guerra Mundial. O enorme aumento dos gastos públicos e a queda da produção levarão a um endividamento global dos governos próximo a 105% do PIB.


Se somarmos a dívida pública e privada, falamos de uma dívida de cerca de 200 mil bilhões/trilhões de dólares americanos, um aumento global de mais de 35% do PIB, bem acima dos 20% vistos após a crise de 2008, e tudo em um único ano.


Este aumento brutal do endividamento não vai impedir que as economias caiam rapidamente. O principal problema dessa cadeia de estímulo global é que ela é inteiramente orientada para apoiar os gastos governamentais inflados e os rendimentos artificialmente baixos dos títulos de dívida pública. Esta é a razão pela qual uma resposta monetária e fiscal global tão massiva não tem feito muito para evitar o colapso em empregos, investimentos e crescimento. A maioria das empresas (pequenas, sem dívidas e sem ativos) está sendo exterminada.


A maior parte desta nova dívida foi criada para sustentar um nível de gasto público projetado para um boom cíclico, não uma crise, e para ajudar grandes empresas que já estavam com problemas em 2018 e 2019, as chamadas empresas ‘zumbis’.


De acordo com o Bank Of International Settlements (BIS), a percentagem de empresas zumbis - aquelas que não podem cobrir seus pagamentos de juros de dívidas com lucros operacionais - explodiu no período de estímulos gigantes e taxas de juro reais negativas, e o número disparará novamente.


É por isto que toda essa nova dívida não vai impulsionar a recuperação económica. Provavelmente prolongará a recessão.


A dívida não é gratuita nem irrelevante, mesmo que as taxas de juros sejam baixas, como os intervencionistas querem que acreditemos. Mais dívida significa menos crescimento, uma saída mais lenta da crise, com menor crescimento da produtividade e uma melhora tépida da empregabilidade. O argumento frequentemente repetido de que "teria sido pior" se esses planos de resgate e gastos não tivessem sido implementados e que "nada mais poderia ter sido feito" é facilmente refutável: os países que cairão menos em 2020, recuperam-se primeiro e fazem-no com as menores taxas de desemprego são os que têm mantido planos de gastos prudentes, preservado o tecido económico e enfrentado a crise sanitária com protocolos sérios. Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura, Áustria, Suíça, Suécia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda... Muitos países não caíram na armadilha de gastos governamentais massivos, proporcionaram melhores resultados económicos e de saúde do que a maioria das nações e o fizeram com níveis mais baixos de intervencionismo.


Muitos países mostram que não é necessário cobrir a economia com enormes desequilíbrios orçamentários para garantir a saúde. 

 

É importante lembrar estes números de enorme endividamento em função da desconexão entre o mercado financeiro e a economia real, que atingiu níveis quase recordes e apresenta características de bolha. Em primeiro lugar, esses enormes estímulos são provavelmente muito grandes, muito prematuros e claramente voltados para a sustentação de setores de baixa produtividade. Tudo isso amparado por uma política monetária que deixou de ser geradora de liquidez e passou a ser a fonte de bolhas de ativos.


O balanço do Banco Central Europeu aumentou quase dois mil bilhões/trilhões de euros até agora este ano [2020] e já é mais de 52% do PIB da zona euro, muito superior ao do Federal Reserve, que está em 32,6% do PIB do EUA ou Banco da Inglaterra, 31,1%. O balanço do banco central do Japão já representa 117% do PIB e suas consequências devem ser um sinal de alerta para todas as nações. O consumo voltou a despencar em maio e o país está estagnado há duas décadas com uma dívida que ultrapassará 260% do PIB. Copiar o Japão é a receita para a estagnação secular.


O enorme aumento do balanço dos bancos centrais para manter os rendimentos dos títulos artificialmente baixos empurrou o mercado acionário para cima, enquanto 80% das empresas listadas abandonaram suas metas de lucro empresarial e os analistas têm reduzido as estimativas para 2020, 2021 e 2022 à maior velocidade da última década, de acordo com o JP Morgan e o Bank of America.


Esta enorme ação dos bancos centrais leva a uma desconexão sem precedentes entre a economia real e o mercado de ações. A expansão dos múltiplos [nota do editor: múltiplos são indicadores de análise fundamentalista de ações, como P/L – Preço da ação dividido pelo lucro por ação; veja outros exemplos através desta ação em ‘Indicadores Fundamentalistas’] acelerou ao mesmo tempo em que as estimativas de receitas despencaram.


Ao tornar os títulos públicos proibitivamente caros [nota do editor: por consequência de juros artificialmente baixos], duas coisas perigosas acontecem: os governos acreditam que os baixos rendimentos dos títulos se devem às suas políticas e os investidores correm muito mais riscos do que pensam que têm em suas carteiras.


Tudo isso parece inofensivo se a bolha se expandir e o efeito placebo funcionar, mas se os dados macroeconómicos, de rendimentos e de emprego continuarem dececionantes, o próximo crash pode ser pior do que o desligamento económico, porque pode adicionar uma crise financeira à já enfraquecida economia. Infelizmente, quando o próximo crash acontecer, governos e bancos centrais dirão que mais estímulos são necessários.



Artigo originalmente publicado no site do Daniel Lacalle.

Tradução e edição de André Marques.

Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.

Nota: As opiniões expressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.