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Daniel Lacalle | O Mais Recente Grande Erro do BCE

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Daniel Lacalle | O Mais Recente Grande Erro do BCE



Nota do Editor: Este artigo foi publicado em 31/12/2020, mas é uma boa fonte para compreender melhor as consequências da política monetária do BCE em toda a zona euro.


Um dos grandes erros dos economistas é receber as medidas dos bancos centrais como se fossem a verdade revelada. É surpreendente e preocupante que se considere obrigatório defender cada uma das ações dos bancos centrais. Isto, é claro, em público. Na privacidade, muitos colegas balançam a cabeça sem acreditar no acúmulo de bolhas e desequilíbrios. E, como em tantas ocasiões, a falta de críticas construtivas leva à complacência das instituições e a uma cadeia de erros que mais tarde todos os cidadãos lamentarão.


- Mantendo o Status Quo


A política monetária na Europa deixou de ser uma ferramenta para ajudar os Estados a fazerem reformas estruturais e passou a ser uma desculpa para não realizá-las.


O financiamento constante dos défices orçamentários de países que perpetuam desequilíbrios estruturais não ajudou a fortalecer o crescimento, já que a zona euro viu constantes cortes nas estimativas do PIB já antes da crise do COVID-19, mas está a encobrir os populistas de extrema esquerda que defendem a impressão maciça de dinheiro e a Modern Monetary Theory (MMT) [Nota do editor: Para saber o que é a MMT, clique aqui, aqui, aqui e aqui;  e veja este vídeo], ameaçando o progresso e crescimento da zona euro. O populismo não é combatido a incentivá-lo, e o impacto de médio e longo prazo desta política equivocada na zona euro é indiscutivelmente negativo.


Hoje, numerosos políticos europeus dizem aos cidadãos que as reformas estruturais e a prudência orçamentária são coisas que foram implementadas por políticos maléficos com más intenções. E a mensagem de que há dinheiro ilimitado para qualquer coisa, quando e como for, é levada pelas ações do BCE.


É surpreendente ouvir alguns economistas sérios do BCE ou do Federal Reserve [o banco central dos EUA] dizerem que não entendem como a ideia de que o dinheiro pode ser impresso eternamente sem risco se espalha por todo o debate político, quando são os próprios bancos centrais que fornecem aquela falsa sensação de segurança. O banco central pode disfarçar o risco por um tempo, mas não o elimina.


- O Problema dos Juros Negativos


Grécia, Chipre, Lituânia, Eslováquia, Espanha, Portugal e Eslovênia já estão a tomar empréstimos a taxas de juro reais negativas. No entanto, taxas negativas não são um sinal de confiança nas políticas do governo, mas uma aberração da política monetária que esconde o risco real. E mais cedo ou mais tarde, explode.


Quando os políticos dizem que rendimentos negativos refletem a confiança dos mercados no país, eles estão simplesmente a mentir. O BCE está a caminho de possuir 70% da dívida soberana em circulação na zona do euro e compra todas as emissões líquidas após os resgates, de acordo com o Pictet e o Financial Times. Não há mercado.

 

Esta confiança temporária na capacidade do BCE de alterar o risco só é sustentada principalmente se a Alemanha continuar a financiá-la e, também, se a zona euro aumentar o seu excedente comercial e a sua produção económica. Não é eterno, não é ilimitado, e, definitivamente, não é isento de riscos.


- Uma Década de Crédito [artificialmente] Barato


Muitos leitores dirão que esta é uma política excecional devido à crise COVID-19 que requer medidas excecionais. Só há um problema com este argumento: é falso.


A política do BCE tem sido ultra expansiva por mais de dez anos, em períodos de crise, recuperação, crescimento e estabilização. As taxas de juro foram reduzidas para negativas e as compras de ativos aumentaram em períodos de crescimento e de estabilidade em que não havia riscos de liquidez na economia.


De facto, o BCE tornou-se refém de Estados que não querem reduzir os seus desequilíbrios estruturais mas pretendem perpetuá-los porque o custo da dívida é baixo e o BCE os “apoia”. O BCE deve estar preocupado com o facto de que os partidos mais radicais, muitos alinhados às políticas económicas da Argentina e da Venezuela, como Podemos ou Syriza, aplaudem esta loucura monetária como uma validação de suas teorias.


Não é por acaso que o ímpeto reformista na zona euro parou abruptamente desde 2014. Isto coincide exatamente com as maciças injeções de liquidez. As reformas estruturais e a prudência orçamentária são vistas como políticas perversas. Taxas de juro baixas e alta liquidez nunca foram um incentivo para reduzir os desequilíbrios, mas, sim, um incentivo claro para aumentar a dívida.


O grande problema é evidente. Uma vez implementada, a chamada política monetária expansionista não pode ser interrompida. Alguém no BCE acredita que os países com défice estrutural superior a 4% do PIB ao ano vão eliminá-lo quando emitirem dívida a taxas negativas? Alguém no BCE acredita honestamente que, depois da crise do COVID-19, os governos vão cortar orçamentos inchados? Dezenas de desculpas serão inventadas para perpetuar uma política fiscal e monetária cujos resultados são, no mínimo, dececionantes considerando o enorme volume de recursos utilizados.


A pior desculpa de todas é que “não há inflação de preços”. É como dirigir um carro a 480 km/h na rodovia, olhando pelo espelho retrovisor e dizendo: "ainda não nos matamos, acelere".


- Inflação de Preços de Ativos Financeiros


Não é surpresa que a zona euro tenha testemunhado um número crescente de protestos contra o aumento do custo de vida enquanto o banco central diz-nos que “não há inflação de preços”. Mas também é, pelo menos, imprudente dizer que há não há inflação de preços sem considerar os ativos financeiros que dispararam devido a esta política.


Os países insolventes com títulos soberanos de dez anos de rendimento negativo representam uma inflação enorme. O aumento dos preços de bens e serviços não replicáveis, que em muitos casos triplicam a taxa de inflação oficial, é uma inflação enorme. Grandes aumentos de arrendamentos/aluguéis e dos preços de casas e apartamentos não se refletem adequadamente na taxa de inflação de preços oficial. É especialmente preocupante quando a política monetária encoraja gastos improdutivos e perpetua o excesso de capacidade. Isto significa menor crescimento da produtividade, o que significa menores salários reais no futuro.


Um estudo recente de Alberto Cavallo, da Harvard Business School, alerta para o diferencial entre a inflação real sofrida pelos consumidores, especialmente os mais pobres, e o CPI [Nota do editor: CPI (Consumer Price Index) - Taxa de Inflação de Preços ao Consumidor] oficial. Veja, por exemplo, o CPI da zona euro para novembro. O valor é –0.3%. Não há inflação de preços, certo? No entanto, nos mesmos dados, os alimentos frescos aumentaram 4.3%, os serviços 0.6% e o componente de energia caiu 8.3%, mas nenhum cidadão europeu viu uma queda de 8.3% em sua conta de energia, porque nem gasolina, nem gás natural ou eletricidade (incluindo impostos) caíram muito.


Na verdade, se analisarmos o custo de vida usando os bens e serviços que realmente usamos com frequência, percebemos que em uma crise sem precedentes como a de 2020, os preços para a classe média e as camadas mais pobres sobem muito mais rápido do que o CPI mostra. E isto, somado ao fator de distorção da enorme inflação dos ativos financeiros, gera enormes problemas sociais.


- Ignorando os Riscos


O facto de que, por enquanto, riscos enormes não sejam percebidos - ou não sejam percebidos pelos gestores do banco central - não significa que eles não estejam a aumentar. A dívida de rendimento negativo, que atingiu o recorde de US$ 18 trilhões em todo o mundo (liderada pela zona euro e pelo Japão) não é um sinal de confiança, mas sim de um enorme risco de estagnação secular.


Quando os líderes do banco central argumentam que oferecem apenas uma ferramenta, mas ao mesmo tempo dão recomendações de política fiscal e orçamentária a encorajar os países a se endividarem e gastarem muito mais, não só o banco central perde independência no médio prazo, mas é o mesmo que um garçom que não para de servir bebidas, incentiva a pessoa beber à vontade e depois fica indignado por esta pessoa ficar bêbada.


A introdução destes enormes desequilíbrios apresenta riscos significativos. E estes não são minha especulação do futuro; são realidades hoje. A enorme desconexão entre ativos financeiros e a economia real, estados insolventes se financiando a taxas negativas, bolhas em ativos de habitação e infraestrutura, dívidas de empresas zumbis ou dívida lixo com rendimentos historicamente baixos, aumento agressivo em investimentos alavancados em setores de alto risco, a perpetuação do excesso de capacidade, etc. Ignorar todos estes fatores em uma instituição monetária é mais do que perigoso, é irresponsável.


Não é hora de fazer tudo custe o que custar, aconteça o que acontecer. É hora de defender o sound money [Nota do editor: sound money se refere a dinheiro que não intervencionado pelo governo, que não é inflacionado] ou a credibilidade das instituições afundará ainda mais à medida que o coro consensual dos economistas convencionais canta aleluia enquanto o prédio desaba.

 


Artigo originalmente publicado no Mises Institute.


Tradução e edição de André Marques.


Autor: Daniel Lacalle é um economista e gestor de fundos espanhol, autor dos bestsellers Freedom or Equality (2020), Escape from the Central Bank Trap (2017), e Life in the Financial Markets (2014). É professor de economia na IE Business School em Madrid.


Nota: As opiniões expressas neste artigo não necessariamente vão totalmente de acordo com as da Elementum Portugal e do tradutor/editor deste artigo.